sábado, 26 de novembro de 2011

Fernando Pessoa

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender... 

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ao pó

De súbito, arfava
Com o ar seco
Apertava a garganta que secava
Golpeava o peito
Demais, a voz falhava

Com a sensação amarga
Do que acabara de dizer
O peito vazio ainda oscilava
Com o vácuo que insiste em permanecer

Do pão ao pó
Do azulado ao preto
Do laço ao nó
Do jardim à vala
Do para sempre ao só

No horizonte,
Já descera o sol
Os sonhos permanecem,
De fronte
E ao norte e ao sul
Estradas distintas.
O preto e o azul
Já se distanciam
Já se resumem,
Ao pó.



Yasmim Barbosa
(17/04/2009)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
... Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Saudades de amar

Ah! Que saudades de amar!
Porque os lírios,
Já não vestem as mesmas cores
Em minha boca,
Já não há o mesmo paladar

E agora?
Para onde levo o barco?
Não há mais cais,
Já desatara o laço
Só a delgada margem,
Avisto
Ao longe, a camuflagem
De minha enrubescida alma

Nunca mais olhara,
A nuança do amor
Por que fugira?
A chispa da paixão
Não me queima mais
Fora rápido,
Fora tal, efusão

Por mera indulgência
Lancina-me com sua ausência
Espargia por meu peito adentro
Por minha vez,
Escondo-me em minha sonsa decência
Apreciando-lhe a voz pelo aposento

Ah! Que saudades de amar!
Para onde fora a lua apaixonada?
As sementes no agro,
Já não brotam
A noite ainda está acordada
E para onde fora o sol?
O calor?
O ardor?

Ah! Que saudades de amar!
De todos os risos eloquentes,
Da ferocidade inconsciente,
Por conseguinte,
Dou-me por conta:
De amor sofremos,
Quando amor perdemos!


                                                                                                                                          Yasmim Barbosa
                                                                                                                                               (11/05/2008)